EDUARDO BITTENCOURT CARVALHO
HOJE A Fifa anuncia a escolha do Brasil como o país-sede da Copa do Mundo de
2014. Na proposta, está o estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, como
provável palco dos jogos a serem realizados em São Paulo.
O principal argumento em prol do Morumbi é a suposta ausência de investimentos
públicos no processo de modernização do estádio. Os gastos com a reforma seriam
arcados integralmente pela iniciativa privada e pelo próprio São Paulo Futebol
Clube. No entanto, trata-se de uma proposta frágil.
Em primeiro lugar, no caso do estádio do Morumbi, existem obstáculos técnicos
incontornáveis ou cujo custo torna a reforma inviável. Apenas para enumerar
alguns deles: ângulo de inclinação, curva de visibilidade e distância entre o
gramado e as arquibancadas são quesitos que não são atendidos no projeto. Além
disso, existem milhares de assentos no estádio que não permitem a visão do lado
oposto no campo de jogo. Considerando que a parte central de um dos lados será
ocupada pela imprensa, parte importante do público terá apenas uma visão parcial
do espetáculo.
Em segundo lugar, a localização do estádio do Morumbi, em um bairro residencial,
de ruas estreitas, é também outro elemento desfavorável, uma vez que não existe
nas imediações espaço suficiente para acomodar todos os presentes na arena, o
que, em caso de emergência, dificulta muito o rápido abandono do local. O
Palácio dos Bandeirantes é uma testemunha ocular do verdadeiro caos urbano que
ocorre em dias de casa cheia.
Infelizmente, além das dificuldades técnicas, há outra grande desvantagem na
proposta.
As melhorias na infra-estrutura do entorno do estádio criarão, inevitavelmente,
a necessidade do dispêndio de vultosos montantes do poder público. Apenas para
citar um exemplo, na Copa do Mundo da Alemanha, o estádio Allianz Arena
(Munique) teve um custo de construção de aproximadamente 286 milhões de euros.
Porém, só nos arredores da arena, o governo alemão teve de investir cerca de 210
milhões de euros em obras de infra-estrutura -ou seja, cerca de 73% do total
gasto no estádio.
Inquestionavelmente, a missão do poder público em garantir as condições
adequadas para a realização de um evento do porte de uma Copa do Mundo é
indeclinável. Questões ligadas ao conforto e, principalmente, à segurança não
são resolvidas eficazmente pelo setor privado. Apenas a intervenção de todas as
esferas de governo pode criar as condições ideais para a realização do evento.
Esse é, no entanto, o ponto mais criticável da utilização do estádio do Morumbi
para a Copa de 2014. A cidade de São Paulo possui um desenvolvimento
socioeconômico desigual. Parcela significativa da cidade é composta por
bairros-dormitórios, desprovidos de emprego em número suficiente para seus
moradores.
Nessas vastas áreas, onde se concentra o grosso da população, os aparatos
públicos de lazer, educação, saúde e transporte são ainda insuficientes.
Por outro lado, a preparação de uma sede de Copa do Mundo implica grandes
transformações em todo o espaço urbano, possibilitando o surgimento de uma ampla
infra-estrutura em benefício da população local.
Existem muitas regiões da zona norte ou da zona leste da cidade que possuem
ótima localização, amplas áreas disponíveis e, principalmente, um contingente
humano sedento por investimento público.
O dispêndio desses recursos em uma das áreas mais abastadas do país, como a
região do Morumbi, representará um ato silencioso, porém, de brutal violência
contra a maior parte da população de São Paulo.
A escolha do local a ser utilizado na Copa do Mundo de 2014, portanto, não pode
ficar restrita a uma discussão entre clubes. Algo maior está em jogo. A cidade
de São Paulo é uma metrópole mundial, que merece a construção de um complexo
esportivo a sua altura, bem como a redução de seus desequilíbrios.
Perpetuar a desigualdade do desenvolvimento urbano é um erro, ainda mais quando
se faz a aposta em um projeto limitado, incompatível com a grandeza da cidade.
Em outras palavras, trata-se de puro desperdício.
São Paulo é grande. Não pode se apequenar. Se a cidade pretende realmente ser
uma das sedes da Copa de 2014, que seja à luz de sua grandeza.
EDUARDO BITTENCOURT CARVALHO, 65, economista, é vice-presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e conselheiro-vitalício do Sport Club Corinthians Paulista. Foi deputado estadual pelo PTB (1983-1986) e pelo PL (1987-1990).