Conexão Saúde debate Outubro Rosa, menopausa e envelhecimento saudável com endocrinologista Filippo Pedrinola


26/10/2026 – SÃO PAULO – O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCESP) disponibilizou em seu canal oficial no YouTube o sexto episódio do programa Conexão Saúde, dedicado ao Outubro Rosa e à ampliação do olhar sobre a saúde da mulher. O programa recebeu o médico Filippo Pedrinola, graduado pela Faculdade de Medicina da USP, com residência em Clínica Médica e Endocrinologia no Hospital das Clínicas da USP e doutorado em Endocrinologia pela mesma instituição, para tratar de prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama, menopausa, mudanças hormonais e preservação da massa muscular.

A conversa foi conduzida por Karyn Bravo e percorreu desde o rastreamento do câncer de mama até os mitos que circulam nas redes sociais sobre hormônios e emagrecimento.

Câncer de mama: rastreamento e a mensagem que falta
Pedrinola destacou que, quando detectado no início, cerca de 90% dos cânceres de mama são curáveis — esse é o cerne da campanha. Sobre o rastreamento, apontou a diferença entre as recomendações: no SUS, as mamografias começam por volta dos 50 anos; na rede privada, a indicação é a partir dos 40 anos, acompanhada de consulta com ginecologista, exame físico no consultório e autoexame — orientado, por exemplo, durante o banho.

O médico alertou que o câncer de mama tem incidência muito alta: a cada 10 mulheres, uma ou duas terão a doença ao longo da vida, independentemente do histórico familiar. Ainda assim, o componente genético existe em parte dos casos, e o histórico familiar não é contraindicação para reposição hormonal. Nesses casos, a medicina de precisão permite realizar painéis genéticos para verificar polimorfismos nos genes BRCA1 e BRCA2, trazendo mais segurança para paciente e médico.

Ele também fez uma ressalva relevante: o que mais mata a mulher após a menopausa é infarto e derrame, cerca de cinco a seis vezes mais que o câncer de mama. Daí a importância de olhar a saúde feminina de forma integral.

Perimenopausa e menopausa: o que realmente acontece
O endocrinologista explicou que o envelhecimento ovariano começa por volta dos 35 anos, muito antes dos sintomas. A menopausa é caracterizada por 12 meses sem menstruar — em média aos 50 anos —, enquanto a perimenopausa (ou climatério) é o período de transição, que pode começar dois, três, cinco ou até sete anos antes.

Pedrinola destacou que exames de sangue normais não descartam a transição, pois mostram "a fotografia daquele momento, mas não o filme". Além dos sintomas clássicos — ondas de calor e insônia —, há queixas menos comentadas: alterações de humor, da sexualidade, do foco, da concentração e da memória.

Citou ainda um estudo recente publicado pelo grupo Nature, com ressonância magnética funcional, que mostrou diferenças de até 30% na atividade cerebral entre mulheres com e sem reposição hormonal. Segundo ele, "a menopausa é cerebral": o estradiol age em núcleos como o pré-frontal, ligado a funções cognitivas e executivas — o que explica casos de mulheres no auge da carreira que passam a não conseguir conduzir reuniões.

Reposição hormonal: individualização e vias de administração
O convidado reforçou que não existe menopausa igual à outra e que o tratamento é sempre caso a caso. Não se espera a mulher ficar 12 meses sem menstruar para iniciar o manejo — em algumas situações, começa-se apenas com mudanças de estilo de vida, alimentação e suplementação.

Sobre as vias, apontou a tendência atual pelo uso transdérmico (gel ou adesivo) ou implante, que evita a primeira passagem hepática — a metabolização pelo fígado, que pode levar os hormônios a "caminhos que não são bons". A progesterona por via oral, por sua vez, tem a vantagem adicional de melhorar o sono e proteger o útero.

Também desfez dois mitos: o de que a testosterona é "hormônio masculino" (a mulher também a produz nos ovários e na glândula suprarrenal, e ela é importante para ossos, massa muscular e saúde mental) e o de que a reposição engorda — o estrogênio, ao contrário, reduz o apetite no hipotálamo e mantém a distribuição feminina de gordura. Citando Paracelso, resumiu: "a diferença entre o veneno e o remédio é a dose".

Atenção especial ao alerta sobre o excesso de estrogênio sem progesterona em mulheres com útero, que pode hipertrofiar o endométrio e elevar o risco de câncer endometrial.

Massa muscular: proteína, treino e sono
Sobre a perda de massa muscular, Pedrinola apresentou três pilares: alimentação, atividade física e sono. A recomendação é de cerca de 1,6 g de proteína por quilo de peso por dia — para uma mulher de 60 kg, algo entre 80 e 90 g diários. Sem esse aporte, "não adianta treinar todo dia na academia, se não há tijolinho para fazer músculo".

Em exercícios, defendeu a musculação de duas a três vezes por semana ao longo de toda a vida, combinada com aeróbico — a OMS recomenda de 150 a 300 minutos semanais. Ele destacou o papel do aeróbico na respiração e no manejo de ansiedade e estresse crônico, ao desviar o organismo da via da adrenalina e do cortisol. Somam-se práticas como meditação e yoga.

Canetas emagrecedoras, peptídeos e pseudociência
O programa abordou o uso indiscriminado de canetas emagrecedoras. Pedrinola classificou o arsenal terapêutico como "uma revolução maravilhosa" no combate ao sobrepeso e à obesidade, mas alertou para o uso recreativo, sem indicação e acompanhamento médicos. Entre os riscos, citou náusea, intestino que para de funcionar, queda de energia e perda de massa muscular por falta de plano alimentar adequado. Também lembrou a necessidade de titulação — começar com doses menores e aumentar gradualmente — e do desmame ao interromper, para evitar o efeito rebote.

Sobre peptídeos, explicou que não são novidade: insulina, GH e hormônio da tireoide são peptídeos, e as próprias canetas também. O problema está na promessa de rejuvenescimento vendida com moléculas ainda em estudo e, muitas vezes, sem aprovação, comercializadas em mercado paralelo.

O maior risco que ele identifica hoje, porém, é a pseudociência: conceitos de fisiologia apresentados como verdades, pulando as etapas dos estudos clínicos. Como contraponto, recomendou fontes confiáveis — sociedades médicas e bases de artigos científicos de acesso livre, como a PubMed.

Ao final, questionado sobre o que não pode faltar na rotina a partir dos 30 ou 40 anos, Pedrinola resumiu: comer bem, praticar atividade física regular e manejar as emoções. "Nós somos o resultado das nossas escolhas."