Conexão Saúde recebe Gonzalo Vecina Neto, um dos criadores do SUS, para debater desafios da saúde pública

13/10/2026 – SÃO PAULO – O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCESP) disponibilizou, em seu canal oficial no YouTube, novo episódio do programa Conexão Saúde. A edição nº 05 recebeu o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, um dos criadores do SUS, fundador e primeiro presidente da Anvisa e uma das principais referências em gestão de saúde no Brasil, para debater os caminhos da saúde pública e a necessidade de organização da oferta de serviços.
A entrevista foi conduzida por Karyn Bravo. Vecina abriu o programa se apresentando como "cliente importante do Tribunal de Contas, como servidor público que sou".
Para Vecina, um dos maiores desafios da saúde pública brasileira é adaptar a oferta de serviços de saúde à demanda. Ele explicou a distinção entre demanda — o que o cidadão quer — e necessidade — o que o profissional de saúde entende que ele deve ter. "Quando eu foco na necessidade e esqueço a demanda, a demanda não desaparece: ela desorganiza o atendimento", alertou, ilustrando com o exemplo do trabalhador demitido que procura o médico por sofrimento psíquico — situação que não se resolve em pronto-socorro, mas na atenção primária.
Atenção Primária e o gargalo da complexidade
O convidado detalhou o cenário atual: 60% da população brasileira é coberta pela Estratégia Saúde da Família, com equipes compostas por médico, enfermeiro, técnico de enfermagem e agente comunitário de saúde para cerca de 3 mil pessoas — modelo que ele classificou como "uma invenção fantástica", iniciada no Ceará em 1985. Entre os problemas, apontou que muitos médicos da atenção primária não foram preparados para essa função, e que os outros 40% ainda são atendidos pelo modelo tradicional, com agenda de 12 pacientes por turno.
Segundo Vecina, a equipe da atenção primária resolve 80% dos problemas de saúde, mas os 20% restantes exigem acesso a exames e consultas mais complexas — e é aí que está o grande gargalo. "Mais médicos, mais plantões: tudo isso é tirar água de navio afundando. Precisamos estruturar o acesso ao sistema mais complexo por meio de uma nova organização", afirmou.
O sanitarista defendeu a criação de arranjos entre municípios e governo estadual em todas as regiões de saúde, com gestão unificada da oferta. Ele citou a Grande São Paulo como exemplo do problema: são 39 municípios e 12 milhões de habitantes, em que 15% das internações realizadas na capital são de não residentes e 70% dos tratamentos de câncer também — "sem nenhuma organização, é um acidente". O sistema estadual de regulação (Cross) e os sistemas municipais, como o SIGA da capital, não se cruzam, gerando filas paralelas para os mesmos cidadãos.
Financiamento: a lição histórica
Questionado sobre o que mudaria se o SUS fosse criado hoje, Vecina afirmou que o modelo inicial era excelente, inspirado no National Health Service inglês, mas que o problema que paralisou o SUS por mais de uma década foi o financiamento: os recursos do FAPAS, previstos nas disposições transitórias da Constituição de 1988 para financiar o SUS, nunca chegaram. Ele relembrou a trajetória até a regra de José Serra (municípios com 15% e estados com 12% das receitas), a Emenda Constitucional 86/2014 e sua revogação pela EC 95, até o cenário atual.
Hoje, o setor público responde por 40% do gasto total em saúde no Brasil, contra 60% a 80% nos países desenvolvidos. "O SUS é um bom projeto, bem desenhado, que não pôde funcionar por falta de financiamento", resumiu.
Sobre os pequenos municípios, Vecina destacou que eles têm vantagem nas condições de vida — a queda de doenças como diarreia infantil, Doença de Chagas e esquistossomose veio do saneamento, não da assistência —, mas que não é possível ter tudo em todo lugar. Ele usou a hemodiálise como exemplo: são 170 mil pacientes no Brasil e apenas 900 unidades, concentradas nas grandes cidades, o que exige deslocamento e organização regional.
Ele também apontou desperdício por falta de organização: 40% das consultas ofertadas pela rede de média complexidade no estado de São Paulo não são utilizadas — pacientes que não comparecem por já terem sido atendidos em outra fila, por terem comprado consulta particular ou por outros motivos. "40% da oferta vai para o lixo. Isso pode ser melhorado com gestão", afirmou, defendendo o modelo das Organizações Sociais de Saúde (OSS), desde que controlado.
Vacinas e legado do SUS
Sobre vacinação, Vecina informou que todas as vacinas estão hoje com cobertura acima de 90%, mas alertou para o risco do sarampo: com surtos nos Estados Unidos e na Europa, o vírus — que infecta 15 pessoas a partir de cada caso, contra 3 do coronavírus — pode retornar ao Brasil. A recomendação do Ministério da Saúde é a revacinação de todos de 6 meses a 60 anos, disponível no SUS.
Perguntado sobre a maior conquista do SUS, ele apontou a evolução da assistência demonstrada na pandemia: "O SUS antes da pandemia tinha uma visão da sociedade. O SUS depois da pandemia teve outra. Durante a pandemia, a sociedade brasileira aprendeu que o SUS é essencial".
O programa Conexão Saúde está disponível no canal oficial do TCESP no YouTube.