Corte Digital debate inteligência artificial e linguagem simples como caminhos para a clareza em escala

25/09/2026 – SÃO PAULO – O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCESP) lançou o segundo episódio do programa Corte Digital, espaço dedicado a debater tecnologia, inteligência artificial, inovação e as transformações que já fazem parte da rotina do serviço público. A edição recebeu os Auditores de Controle Externo Marcus Cerávolo e William Wistuba, autores do artigo "Inteligência artificial e linguagem simples: clareza em escala".
Apresentado por Karyn Bravo, o programa explorou o encontro entre dois temas que parecem distintos, mas que compartilham o mesmo objetivo: tornar a informação pública realmente acessível ao cidadão.
Os convidados abriram a conversa destacando o abismo entre a linguagem do poder público e a linguagem das pessoas. Marcus Cerávolo sintetizou o problema com a frase "Publicar não é comunicar" — cumprir o princípio da publicidade não garante que a informação seja compreendida.
Os auditores lembraram que o Brasil tem 29% de semianalfabetos e apenas 10% de letrados plenos, o que torna essencial que instituições como o Tribunal saiam da "bolha" e comuniquem de forma que o cidadão encontre, entenda e possa agir sobre a informação — condição para o exercício do controle social.
A ideia do artigo nasceu da convivência dos dois auditores no mesmo gabinete: Marcus estuda linguagem simples desde a pandemia, e William domina o uso de inteligência artificial. A união dos dois campos permitiu identificar o maior gargalo da linguagem simples — o tempo de tradução de textos técnicos — e como a IA pode resolvê-lo.
Segundo os convidados, pela primeira vez uma tecnologia se adapta à pessoa e não o contrário: a IA pode ser consultada a qualquer hora, quantas vezes for necessário, sem que o usuário precise ler manuais ou fazer cursos. Com um prompt bem construído — comando que contém contexto, objetivo e formato desejado — é possível traduzir jargões como "jurisdicionado" ou "a origem" para termos claros como "prefeitura" ou "Câmara", em velocidade e escala antes impensáveis.
Riscos e limites
O programa também abordou os riscos do uso da tecnologia. Os auditores destacaram a alucinação — quando a IA produz textos com aparência correta, mas sem verificabilidade — e o descarregamento cognitivo, o risco de a nova geração deixar de exercitar o pensamento crítico e perder a autoria do próprio trabalho.
A recomendação é tratar a IA como ferramenta: dar os comandos certos, contextualizar, supervisionar e fazer sempre a revisão humana, conferindo as fontes. "Você é responsável, no fim das contas, por aquilo que é feito", ressaltaram.
Para os convidados, a mudança na forma de produzir e consumir informação é um caminho sem volta. A mensagem final do artigo é inspirada no filósofo espanhol Ortega y Gasset, para quem "a clareza é a cortesia do filósofo": no serviço público, a clareza não é apenas cortesia, mas obrigação — afinal, é o cidadão quem paga a conta e precisa entender as decisões que o afetam.
O programa Corte Digital está disponível no canal oficial do TCESP no YouTube.